quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A Casa

O único lugar no Universo que contém todas as lembranças de nossas vidas: lágrimas, movimentos, brigas, e tudo mais. 


Nossa casa.


Quem dera esse lugar fosse eterno! Se eu pudesse, daqui a cinquenta anos, retornar àquele velho portão, abri-lo com a mesma chave, ver o mesmo quintal. Ah, aquelas acerolas caídas no chão... E aquelas várias nascendo, aos montes, pontos vermelhos e roxos que distinguiam-se um dos outros, como bolas numa árvore de natal.


E via a porta da casa da minha avó aberta. A velha sempre estava lá, sentada no mesmo sofá, remexendo os mesmos papeis, procurando saber se tomou os remédios do dia. E o velho, meu querido avô, sentado na cadeira, balançando a perna, com as mãos cruzadas e polegares afiados, competindo um com o outro num ciclo sem fim.


Na cozinha havia café, e, muitas vezes, um bolo simples comprado na padaria próxima. Mas a sensação era aquele Mate Leão que a velha fazia, com um sabor único, longe de ser o certo, mas saboroso como só ele poderia ser. Tinha sabor de fim de tarde, sabor de conversa, sabor de risos e lembranças.


Terminada a estada temporária, eu subia aquelas escadas, observando os balaústres rachados e brancos, quando resolvia olhar para o céu, e em seguida para a porta fechada. Quando abro, minha mãe, minha alegre e doce mãe. Lembro-me perfeitamente dos almoços e bolos. Nas mãos daquela mulher, até carne moída tinha um gosto especial! E os bolos... Para comprovar esta sua especialidade, pergunte a quem provou e sempre a procurou para fazer seus bolos de festas, desde simples aniversários caseiros até formaturas. Dou um beijo em sua testa e sigo para meu quarto, onde encontro minha irmã. Naquela idade, arteira e vaidosa, como toda menina deve ser. Feliz e falante, nenhum ambiente ficava quieto com ela; era quem trazia alegria em todos os momentos. Brigávamos muito, é verdade. Mas nunca deixei de abraçá-la no momento certo. 


Enquanto esquentava meu café-com-leite, meu velho pai, cansado do trabalho, chegava em casa em seu táxi. Cansado mas feliz: havia anos não o via daquele jeito. Nós estávamos bem, e tudo devemos a ele. Me arrependo amargamente por tê-lo desrespeitado inúmeras vezes, mas hoje nada daquilo ficou. Somos amigos, e me orgulho por ter um amigo tão valioso como ele: alegre, sempre de bem com a vida, esforçado. São os exemplos mais sagrados que eu pude ter retirado de alguém em vida.


E quando descia, não podia de visitar minha prima, aquela que também passou por dificuldades no passado, mas que me ensinou uma lição que eu nunca esquecerei. Volta e meia estava bicuda, com raiva de algo, mas era entendível: eu saía de sua casa e esperava que melhorasse. Depois todos estávamos rindo novamente.


As pessoas que eu mais amei estavam lá, todas em seu devido lugar, lidando com seus respectivos problemas, cada uma pensando em sua vida. E eu aqui, sentindo falta deles... Queria mesmo que daqui a cinquenta anos todos estivessem aqui, congelados, petrificados, parados no tempo, como se este não passasse, apenas vagasse zombeteiro, ameaçando adiantar o relógio. Mas o tempo não zomba. Na verdade, ele não possui estas emoções que estão neste momento no meu peito, fazendo das minhas lágrimas combustível que se transforma em palavras.


Hoje aquele quintal já não é mais o mesmo. Traduziu-se em outras histórias, outras vidas, que estão sendo vividas à sua maneira. Nunca mais vou poder contar com aquele Mate Leão, nem ver aqueles dedos rodarem, nem subir as escadas e dar de cara com meu próprio mundo. Não poderei mais correr livremente pelo quintal, me pendurar nas grades, correr como um raio por entre todos os cantos da casa... Não vou mais poder olhar o lugar onde o Dipper, nosso poodle de estimação, costumava deitar todos os dias para dormir, ali, perto da garagem, bem em baixo da árvore... Também não vou poder soltar a Polly, a beagle que veio bem depois da morte do Dipper, para correr como um jato, brincando com todos até se cansar e eu ter que levá-la de volta ao terraço, onde ficava... 


O único lugar no Universo onde eu me encontrava quando estava perdido não guarda mais as minhas memórias. É duro tocar aquelas paredes repintadas e saber que minha vida fora substituída. Minha ótima vida... Que vida...  que saudade...

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